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Council for the Development of Social Science Research in Africa                +221 76 609 13 05 | codesria@codesria.org

       

       

CODESRIA

África em Tempos de Rápida Transformação Global: Reivindicar a Agência, Repensar a Liderança, Promover a Justiça.

 Local: Dakar, Senegal

Data: 7 a 11 de dezembro de 2026

O Conselho para o Desenvolvimento da Pesquisa em Ciências Sociais em África (CODESRIA) tem o prazer de anunciar a sua 17.ª Assembleia Geral (AG) Trienal, a realizar-se em Dakar, Senegal, de 7 a 11 de dezembro de 2026, subordinada ao tema «África em Tempos de Rápida Transformação Global: Reivindicar a Agência, Repensar a Liderança, Promover a Justiça.» A AG do CODESRIA é uma conferência trienal de estudiosos e académicos provenientes, sobretudo, das humanidades e das ciências sociais em África e da diáspora africana. Para além das sessões científicas da AG, será convocada uma reunião dos membros «em situação regular»[1] para avaliar o trabalho e o funcionamento do Conselho no período decorrido desde a 16.ª Assembleia Geral e discutir a agenda global para os três próximos anos.

As reuniões da AG do CODESRIA têm, ao longo da sua história, constituído, espaços privilegiados de reflexão inteletual e de debate crítico sobre a evolução política e socioeconómica em curso, cujas trajectórias têm grandes implicações para África, os seus povos, o Estado e a sociedade. Do mesmo modo, a 17.ª AG foi concebida para proporcionar aos participantes um espaço para explorar e questionar as rápidas transformações em curso no sistema global. A ideia é destacar de que forma o continente se deve posicionar face a estas transformações, a fim de moldar positivamente o seu próprio futuro e, ao fazê-lo, contribuir para a reconfiguração das questões globais.

Os temas centrais da agência, da liderança, do conhecimento e da justiça manifestam-se de forma marcante nas actuais transformações geopolíticas. Os perigos decorrentes do restabelecimento de relações neocoloniais destacam-se como uma das maiores ameaças para África.

O desejo, nos Estados Unidos da América (EUA) e na Europa, de revigorar a aliança transatlântica — ainda que aceite a contragosto em certos meios nos EUA — remete para uma ordem mundial que imaginava África como um actor inferior nessa ordem. Do lado africano, a situação é agravada pela postura persistente da maioria das lideranças africanas, que se posicionam como suplicantes perante os ditames emanados do Norte global. Os participantes na AG serão incentivados a analisar as actuais transformações políticas, socioeconómicas, tecnológicas, climáticas e geoestratégicas do sistema global, identificando as oportunidades e os desafios que estas colocam a África, bem como formular respostas políticas e posicionamentos africanos adequados, orientados para a promoção e defesa dos interesses do continente e da sua diáspora.

A AG de 2026 realiza-se num momento de rápida transformação global. Uma das transformações mais marcantes é a transição para uma ordem mundial  multipolar emergente, na qual a hegemonia unipolar dos EUA tem vindo a ser progressivamente desafiada e revela sinais de declínio, enquanto o da China consolida a  sua ascensão. Os dois países competem não só pela hegemonia geopolítica e económica global, mas também pela supremacia tecnológica. Esta evolução tem sérias implicações para África, sobretudo dado o papel central do continente como fonte de recursos  primários essenciais ao desenvolvimento e à inovação tecnológicos. A multipolaridade emergente tem, igualmente, assistido à crescente «reafirmação» da União Europeia no quadro da NATO, em grande medida como resposta a uma política externa norte-americana cada vez mais isolacionista, especialmente sob a administração de Donald J. Trump. Os governos europeus responderam aumentando os orçamentos de defesa e cortando, simultaneamente, os fundos anteriormente destinados ao apoio ao desenvolvimento no exterior. Esta reorientação, conjugada com a crescente afirmação das formações do Sul global — evidenciada pela expansão do bloco BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) para os BRICS+ (que passaram a incluir o Egipto, a Etiópia, a Indonésia, o Irão, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos) —, bem comocom os desafios do petrodólar face à guerra dos EUA/Israel contra o Irão, configura um cenário internacional que oferece oportunidades e desafios singulares à agência dos Estados africanos no sistema global.

No plano económico, persiste a luta pela reconfiguração das relações económicas globais, com África a procurar ampliar o seu direito de proteger e assegurar a própria soberania. Esta luta exige novas formas de liderança política e de estruturas de governação económica capazes de mobilizar os recursos de África para o desenvolvimento do continente e de garantir que a justiça social continue a constituir parte integrante do processo de desenvolvimento. Os recursos necessários para assegurar o desenvolvimento de África não devem ser entendidos apenas em termos económicos; a definição deve ser alargada de modo a incluir os recursos demográficos, culturais e científicos. Paralelamente, é imperativo repensar a relação de África com o Norte global em matéria económica, colocando em primeiro plano os interesses e as prioridades económicas do continente, sobretudo no que respeita à exploração de recursos naturais e à negociação de iniciativas económicas, comerciais e de investimento com alcancetranscontinental.

A AG de 2026 realiza-se num contexto global marcado pelo recrudescimento e pela intensificação de conflitos e guerras internacionais, bem como pela persistência de conflitos regionais e guerras civis duradouros, alguns dos quais se tornaram terreno fértil para manipulações neocoloniais. Isto manifesta-se nos conflitos e guerras entre a Rússia e a Ucrânia; entre os EUA e Israel, por um lado, e o Irão, por outro; e na guerra de Israel em Gaza e contra o Líbano — uma guerra que chegou ao ponto de ser descrita como um crime contra a humanidade. O facto de esta guerra ter visado também a destruição de instituições como museus, hospitais e universidades, para citar apenas algumas, aponta para afastamentos crescentes e intencionais das regras de guerra vigentes. Tudo isto tem implicações profundas para o sistema global em geral, e para África e os interesses africanos, em particular. Além disso, os conflitos regionais africanos na República Democrática do Congo, no Sudão do Sul e no Sudão, entre outras regiões, a par do aumento da violência xenófoba em várias partes do mundo, incluindo, de forma mais marcante, na África do Sul, levantam questões cruciais sobre a eficácia da governação africana e sobre o empenho dos governos na resolução de conflitos e na facilitação do acesso dos cidadãos a condições de vida básicas e dignas.

Em simultâneo, o sistema global atravessa uma fase de inúmeras inovações e outros desafios sobre os quais a AG é convidada a reflectir. Por um lado, a escalada catastrófica das alterações climáticas que vem se impondo, e, por outro, a inovação em torno da inteligência artificial (IA). Ambas constituem eixos fundamentais das transformações globais. Embora as mudanças climáticas se caracterizem por padrões meteorológicos cada vez mais erráticos, a IA tem reconfigurado a governação, a participação cívica e os processos de desenvolvimento. Ainda que as mudanças climáticas nas sociedades africanas sejam particularmente significativas, sobretudo no contexto da dependência do continente da agricultura de sequeiro como principal fonte de subsistência, o potencial transformador da IA tem implicações de longo alcance na educação, na política, na saúde e na provisão social. A AG deverá reflectir sobre o impacto das mudanças climáticas na segurança alimentar em África, ou sobre o alcance e limites ético-morais do uso da IA na pesquisa, no ensino e na aprendizagem, bem como na representação social, incluindo uma reflexão sobre os benefícios e os riscos do uso da IA por estudiosos e académicos das humanidades e das ciências sociais nos seus vários domínios de estudo e prática. Deverá, igualmente, reflectir sobre as formas como os sistemas de IA podem construir e privilegiar determinadas concepções da realidade, moldando assim a forma como a existência social e cultural é representada.

Existem outros eixos de transformação no contexto global contemporâneo que não podem ser plenamente desenvolvidos nesta chamada. Estes incluem as questões da ecologia e da sustentabilidade ambiental, a questão da mobilidade e da migração, as lutas crescentes das comunidades marginais e marginalizadas, o lugar dos dados, do conhecimento e dos média, e a forma distinta como se manifestam em torno das questões da representação. Há a questão evidente da identidade e em que medida as identidades e a política identitária são cruciais para as transformações globais, incluindo, sobretudo, as identidades estruturadas em torno do género, da raça e da classe. A questão passa então a ser como encontrar o justo equilíbrio entre adoptar tecnologias inovadoras e transformadoras e mitigar as suas consequências ecológicas nefastas.

Não escapa ao Conselho de que as múltiplas, interligadas e rápidas transformações acima destacadas são frequentemente enquadradas de formas que posicionam a África como um objecto passivo, e não como um sujeito activo desta transformação. No cerne destas deliberações está, portanto, a questão da agência africana — não por ser única ou nova no continente, mas porque, quando a agência africana permanece não articulada, abre-se espaço para que actores externos falem em nome de África, muitas vezes em tons profundamente paternalistas. O continente não só forçou um repensar de grandes questões económicas que afectam tanto África como o mundo — como se reflecte na agenda adoptada na recente cimeira do G20 em Joanesburgo, África do Sul — como assumiu também um papel de liderança na promoção da justiça social. Isto é particularmente evidente na sua resposta ao genocídio em Gaza, tendo a África do Sul desempenhado um papel importante na colocação da responsabilização em primeiro plano e na mobilização de acção jurídica internacional. Nas Nações Unidas (ONU), África, em articulação com muitos países do Sul global, tem defendido persistentemente a reforma da ONU, embora esse gesto tenha sido acolhido com relutância no Norte global. A luta persistente por uma arquitectura financeira global mais justa levou África, através da União Africana, a adoptar uma posição firme sobre a dívida e a mobilizar amplas bases não só em torno da reestruturação da dívida, mas também de condições justas de financiamento. Na África Ocidental, a luta para libertar algumas economias da região das amarras coloniais do franco CFA constitui um exemplo vibrante da longa marcha rumo à soberania económica e monetária. A iniciativa liderada pelo Gana nas Nações Unidas para reconhecer a escravatura como o mais grave crime contra a humanidade representa também um caso em que o continente ajudou a reconfigurar a memória histórica e a alargar a compreensão global da justiça. Aqui, África continua a ser a consciência do mundo, sendo as suas iniciativas cada vez mais acolhidas por vastos sectores, incluindo o Papado, que instituiu a Comissão do Jubileu, centrada na desigualdade, e lançou um apelo urgente à acção sobre a crise da dívida.

Subtemas

É neste contexto que a 17.ª AG do Conselho convida estudiosos, pesquisadores e académicos a submeterem comunicações alinhadas com qualquer um dos seguintes subtemas, que servem de pontos de entrada para interrogar as transformações multifacetadas acima delineadas. Caso uma candidatura não se enquadre em nenhum dos temas, a equipa de avaliação do Conselho estará aberta a propostas adicionais, desde que demonstrem a sua relevância para o tema geral da 17.ª AG.

 

Definir as transformações globais.

  1. Compreender os contornos da rápida transformação global.
  2. As humanidades e as ciências sociais durante as rápidas transformações globais.

Para Além do Mundo Unipolar

  1. Para além do mundo unipolar: os contornos da transição.
  2. O multilateralismo e o destino das organizações internacionais.
  3. A arquitectura global de paz e segurança num mundo multipolar.
  4. Novos actores numa nova ordem mundial: o papel dos BRICS+

Uma Questão de Voz: A Política Externa de África

  1. Uma questão de agência? África nas transições e transformações globais.
  2. Repensar a política externa africana num contexto de ordem global em mutação
  3. Um aprofundamento da multipolaridade? Implicações para África.

A Educação e o Papel do Conhecimento

  1. O conhecimento e as formas de conhecer num mundo novo.
  2. O sector do ensino superior africano num mundo em transformação
  3. A inteligência artificial e as transformações globais.
  4. Dilemas na aplicação da inteligência artificial.
  5. Sistemas de Conhecimento Autóctone e Justiça Epistémica

A Cidadania e a Questão Nacional

  1. O Estado e a questão da cidadania
  2. O Estado africano e a nova ordem mundial emergente.
  3. Do nacional ao pan-africano: repensar a questão da cidadania

Movimentos, Justiça e Inclusão

  1. Dimensões de género de um sistema global em rápida transformação
  2. Movimentos de mulheres na reestruturação da ordem global
  3. Transformações através dos protestos

Juventude, Liderança e Criativos

  1. A questão da juventude num mundo em mudança
  2. Juventude, protestos e reconfiguração da governação em África
  3. Reconfigurar as arquitecturas de governação global.
  4. A juventude como liderança fora dos espaços políticos.
  5. O desporto, a música e as artes na reconfiguração das arquitecturas globais.

Pertencimento Longe de Casa

  1. Perspectivas de uma África sem fronteiras numa nova ordem global.
  2. Migração, mobilidade e deslocação.
  3. Cidadania, da xenofobia à afrofobia.

Comunidades Regionais e Integração Regional

  1. A geopolítica e as dinâmicas de integração regional de África.
  2. A integração regional e a Zona de Comércio Livre Continental Africana
  3. África e as dinâmicas do comércio internacional.

Governar um continente desmembrado

  1. O anti-imperialismo e a ascensão de uma nova liderança política africana
  2. Conflitos regionais, intervenções externas e soberania africana.

Vias Navegáveis e os Mares Africanos

  1. A geopolítica dos mares africanos
  2. O comércio marítimo e as economias africanas

Ecologia e Sociedade

  1. Redefinir o desafio das mudanças climáticas.
  2. As mudanças climáticas e os imperativos do desenvolvimento sustentável.
  3. Mudanças climáticas, agricultura e segurança alimentar
  4. Repensar os pactos mineiros de África
  5. Os recursos africanos e a rivalidade tecnológica EUA-China
  6. A política de controlo dos minerais de terras raras.

O Destino da Agricultura e da Indústria

  1. Agricultura e segurança alimentar em África
  2. Manufactura/industrialização local em África
  3. Terra, trabalho e transformações globais

Os sistemas globais de justiça e as suas implicações para África

  1. Direitos humanos, justiça e responsabilização num mundo em mudança
  2. Desigualdades, pobreza e justiça social
  3. Os média, a democratização e a representação social

Submissão de Resumos e Propostas de Painéis

Os académicos, pesquisadores e estudiosos que pretendam ser considerados para participar na 17.ª AG como apresentadores de comunicações ou coordenadores de painéis são convidados a submeter resumos de comunicações ou propostas de painéis à apreciação do Comité Científico do CODESRIA até  30 de agosto de 2026. Os candidatos seleccionados serão notificados até 30 de setembro de 2026 para submeterem as comunicações completas, as quais serão objeto de uma segunda ronda de avaliação. Os autores seleccionados serão informados a 30  de outubro de 2026.

  • Os resumos das comunicações não devem exceder 500 palavras
  • As propostas de painéis não devem exceder 1.000 palavras.
  • Cada submissão deve indicar claramente o subtema em que se insere.
  • As submissões podem ser feitas em inglês, francês ou português
  • Todas as submissões devem ser feitas exclusivamente através do portal de submissão em: https://apply.codesria.org/. Não serão aceites submissões por correio electrónico.

Para quaisquer questões relacionadas com esta chamada, contacte general.assembly@codesria.org

 

[1] Consultar a Carta do CODESRIA, artigo 17.º-A